“Samba Surge” do Brasil Recupera e Aquece Demandas Internas e Externas por Bens de Luxo

São Paulo e Buenos Aires são os principais centros latino americanos para consumo de bens de luxo, e alvos de interesse para fortes investimentos de muitos dos líderes mundiais do varejo e da fabricação de bens de luxo. A Euromonitor International analisa de perto o que está impulsionando demanda e oportunidade em ambas cidades.

São Paulo, o motor brasileiro para consumo de bens de luxo

Há uma década atrás, indivíduos latino americanos de alta renda fariam suas compras de bens de luxo típicamente em Miami ou New York. Esse era o fim de semana ideal para quem queria comprar um guarda roupa novo com marcas de grife ou gastar em acessórios de alto luxo.Os corredores de Miami e New York ainda são populares, mas a América Latina já tem seus próprios pontos quentes para comprar em casa.

São Paulo, a maior cidade da América Latina e a terceira maior do mundo em população, emergiu como a base regional dominante do consumo de marcas de prestígio, alimentada pela recém encontrada prosperidade econômica e por um apetite aparentemente insaciável por compras entre a classe média da cidade.

Os cariocas (pessoas do Rio de Janeiro) fazem piada dizendo que os paulistanos (pessoas de São Paulo) adoram comprar tanto porque eles não têm praia. Na verdade, o que São Paulo pode ter em falta na cultura de praia, sobra na cultura de compras, especialmente no que se refere a bens de luxo.

Seja no shopping Iguatemi, na loja de departamentos Dasiu ou nas luxuosas boutiques de ruas como Lorena e Haddock Lobo no bairro dos Jardins, a maioria das marcas líderes mundiais estão em exposição em São Paulo. Muitas também estão ansiosas para deixar pegadas maiores não somente em São Paulo mas em todo o Brasil.

Em particular, o desenvolvimento dos shopping centers está gerando maior interesse entre varejistas interacionais de bens de luxo, com mais de 100 novos shoppings em construção para serem abertos em 2014 com um custo de quase 3 bilhões.de dólares.

O fabricante de bolsas de luxo Mulberry, do Reino Unido, é uma das marcas de prestígio trendsetting que ainda falta fazer uma incursão pelo Brasil, apesar da popularidade da marca entre os brasileiros. Novos shoppings estabelecidos para serem abertos no próximo ano poderiam promover um ponto de entrada viável.

Em 2011, o mercado brasileiro de bens de luxo, foi avaliado em mais de 7 bilhões de dólares de acordo a dados fornecidos pela Euromonitor International, com São Paulo no epicentro do consumo. Esse foi quase cinco vezes o valor das vendas de bens de luxo no México, que é a segunda maior economia da América Latina e um significativo ponto de interesse para novos investimentos entre varejistas para bens de luxo.

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Fonte: Euromonitor International

Uma nova classe milionária no Brasil

Durante a década passada, uma grande demanda por bens de luxo em São Paulo tem sido alimentada pelo elevado (voltado ao consumidor) crescimento econômico do Brasil.E enquanto o crescimento macro econômico esteja desacelerando esse ano, refletindo lentidão na fabricação e um rítmo mais glacial de investimento, a história do crescimento de consumo parece estar se mantendo firme. Em parte, isso é porque os brasileiros são mais gastadores que poupadores – um traço que pode ser identificado desde a era da hiper inflação no começo dos anos 1980 onde existia uma pressão para gastar os salaries antes de ter seu valor corroído.

Os brasileiros também estão historicamente acostumados a períodos de instabilidade econômica, e tendem a não ter reações instintivas – como a de apertar o cinto – quando os indicadores macroeconômicos dão errado.

Além do mais, os brasileiros ainda estão se deleitando no recente período de prosperidade econômica. Entre 2007 e 2011, estima-se que o boom de consumo do Brasil criou uma média de 19 novos milionários por dia (alguém que vale 1 milhão de reais tem um valor líquido aproximado de 500 mil dólares).

Também houve uma expansão da chamada classe C, mais visível na região nordeste, oficialmente a região mais pobre, onde vive cerca de 30% da população.

A expansão da classe HNWI por um lado, e da classe média por outro, criaram uma nova demanda tanto para bens de alto luxo quanto para bens de luxo a preços acessíveis. Este último, em particular, mostrou um súbito crescimento nos ultimo cinco anos.

Isso é indicativo de um forte status de cultura de consumo, onde aspirantes consumidores da classe média compram marcas de prestígio como testemunho de posição social. O traço não se move por vaidade, mais por orgulho.

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Fonte: Euromonitor International

Buenos Aires perde sua arogância

Localizada a um pouco mais de 1000 Km de São Paulo, com um tempo de vôo aproximado de duas horas e meia, está a capital Argentina, Buenos Aires. Nos anos 1980 e início dos 1990, foi um imã para latino americanos de alta renda com gosto por casacos de pele e vinhos. Lojas de bens de luxo, hotéis boutique e uma cultura de café ao estilo parisiense estavam presentes em Buenos Aires muito antes de que esses conceitos fossem moda em São Paulo.

Da mesma forma, portenhos (pessoas de Buenos Aires) trendsetting estavam vestindo Prada, Gucci, Louis Vuitton, Hermes and Armani muito antes que estas grifes tivessem se desenvolvido entre os emergentes paulistanos.

Seria justo dizer que houve uma bravata para Buenos Aires nos anos 1990, representada economicamente pela paridade da moeda nacional com o dólar americano. Tudo mudou com a inadimplência da dívida e a queda da moeda em 2001. Quase da noite para o dia, as reservas em dólares americanos das contas de milhões de argentinos foram virtualmente eliminadas.

Essa foi uma crise econômica que impactou mais a classe média. Como resultado, o abastecido mercado doméstico de bens de luxo foi substancialmente enfraquecido.

Paradoxalmente, a desvalorização da moeda serviu de otimismo para a indústria argentina de bens de luxo.

Isso pavimentou o camiho para um surgimento do turismo internacional, especialmente brasileiro. Em semanas de desvalorização, as lojas high-end de Buenos Aires estavam embaladas com brasileiros ricos, chilenos e uruguaios comprando vinhos finos e couro fino, que alguma vez já foram terreno (quase) exclusivo da população doméstica.

Para os portenhos, o fluxo constante de vizinhos latino americanos chegando em sua cidade para comprar bens de luxo de marcas nacionais e internacionais foi uma pílula amarga em que engolir. Esse foi o início de uma era mais humilde para Buenos Aires e para a Argentina.

No entanto, a subsequente recuperação econômica do país foi espetacular. Depois da contração de 11% em 2002, o PIB real cresceu em torno de 9% ao ano, nos cinco anos.consecutivos.

O crescimento econômico superou o do Brasil,e foi mais na escala da China e Índia. Seguido de um breve lapso em 2009, ocrescimento real anual voltou a ser de 9% em 2010 e 2011.


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Fonte: Euromonitor International

A pungente e revitalizada era dos bens de luxo dos brasileiros em Buenos Aires

No Pátio Bullrich, um luxuoso shopping em posadas no luxuoso distrito de Recoleta, se tem a idéia de como a paisagem de luxo se desenvolveu em Buenos Aires. Uma década atrás, as lojas mais populares nesse shopping vendiam luxuosas marcas locais, especialmente bolsas e casacos de pele. Hoje, grande parte dessas lojas se mudaram largamente para o térreo e estão subordinadas aos gostos de Tiffany & Co, Rolex, Omega and Carolina Herrera, que enchem as vitrines e os andares superiores.

Ainda mais revelador é que o acento das pessoas comprando anéis de noivado na Tiffany’s e relógios na Rolex é predominantemente brasileiro, e não argentino. Apesar da forte recuperação econômica da Argentina na década passada, parece que o carro chefe do mercado de bens de luxo em Buenos Aires é a história de crescimento brasileiro, o tão comentado “Samba Surge”, e não o argentino.

É verdade que a confiança do consumidor tem crescido na Argentina, mas a inflação vem subindo muito e existe uma prudência nos gastos da classe média, o que é visível no varejo e food service em Buenos Aires.

O ”Samba Surge” vem alimentando indústrias de bens de luxo em outras partes do mundo também. Harrods, Mulberry and Burberry em Londres, por exemplo, contam com brasileiros (como com chineses e russos), para uma significativa parte do seu volume de negócios anual. E essa é uma história similar para os varejistas para bens de luxo em París, Milão e Nova Iorque.

Há uma legítima preocupação, entretanto,de que a atual desaceleração da economia brasileira possa perturbar um pouco a resistência da indústria de bens de luxo global. Em particular, o enfraquecimento do Real vai diminuir o entusiasmo brasileiro para viagens ao exterior particularmente entre as novas classes médias que têm demonstrado apetite por bens de luxo a preços acessíveis.

Os brasileiros devem ter uma propensão natural para gastar, mas eles vão canalizar esses gastos mais para o mercado interno do que para o mercado internacional se o Real continua enfraquecendo.

Essa é a implicação crítica, talvez. Em suma, o próprio setor varejista brasileiro de bens de luxo, podería se recuperar de uma mais lenta macroeconomia e de uma moeda mais fraca. Os maiores perdedores seriam as lojas próprias de varejistas para bens de luxo na Europa Ocidental e América do Norte. O Mercado de bens de luxo em Buenos Aires seria um pouco contagiado, mas marcadamente menos que na Europa por sua proximidade ao sudeste do Brasil (São Paulo and Rio de Janeiro) e a comparativa fraqueza da moeda argentina que manteria os preços competitivos para os brasileiros.

O que é certo é que os shopping centers e as áreas do comércio de luxo de São Paulo e Buenos Aires vão continuar gerando novos forte investimentos da indústria de bens de luxo.

O Brasil, em particular, será um foco global chave de expansão de bens de luxo, alimentado pelo rápido crescimento de seus shopping centers e reforçado até certo ponto pelo marketing e oportunidades de promoção apresentadas pela realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e pelos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016.

Os varejistas e fabricantes internacionais de bens de luxo que devem estar repensando sua estratégia para o Brasil em meio a sinais de uma desaceleração econômica, não devem ser desconsiderados.

O histórico de crescimento seguirá forte nos próximos cinco anos e provavelmente não haja existido um melhor momento para deixar ainda maiores pegadas em bens de luxo no Brasil.