FiSA 2019: Qual o futuro do mercado de orgânicos no Brasil?

Desde 2003, o mercado de alimentos e bebidas saudáveis no Brasil cresce acima da média mundial em faturamento, mantendo resiliência durante a crise e, até 2023, segundo dados da Euromonitor International, o mercado de alimentos e bebidas orgânicos no Brasil deve crescer a uma taxa média anual de 9% em faturamento (a preços correntes e taxa de câmbio fixa de 2018). Embora ainda muito positiva – especialmente em um cenário incerto de recuperação econômica, esta projeção é inferior à registrada pela categoria no período entre 2013 e 2018 – de mais de 10%.

O consumidor se viu obrigado a repensar certos hábitos de compra perante a renda afetada pelo contexto econômico e a indústria de orgânicos também enfrentou diversos desafios durante o período, debatidos na última edição da feira FiSA 2019 – Food Ingredients South America – na conferência Summit Future of Nutrition.

Crescimento do mercado de orgânicos no Brasil: o objetivo é também o desafio

Atender aos requisitos para obter o Selo Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica não é tarefa fácil – e este é, justamente, o maior gargalo na cadeia produtiva hoje. De acordo com profissionais da indústria que participaram do debate “Desenvolvimento Estratégico da Cadeia Produtiva de Orgânicos e Parcerias na Indústria”, hoje, não é possível encontrar ingredientes orgânicos em escala suficiente para que quaisquer marcas possam fazer a transição para esta cadeia. Isso porque não há oferta garantida dos itens ao longo de todo o ano, por conta da sazonalidade, e também pela necessidade de rotação de culturas para garantir bons níveis de produtividade do solo de orgânicos.

Muito se questiona se a verticalização da produção seria uma alternativa para garantir suprimentos de maneira constante, possibilitando o aumento na oferta de produtos a partir de ingredientes orgânicos, mas esta não seria uma solução isolada: é preciso investir em infraestrutura para garantir que os ingredientes cheguem às linhas de produção em tempo hábil, promover alianças e estabelecimento de cooperativas para negociação de preços e quantidades que beneficiem a cadeia e a indústria e, por fim, a profissionalização dos produtores.

Enquanto em outros segmentos de produtos saudáveis cresce o movimento de fusões e aquisições de marcas menores por grandes grupos, em orgânicos, isso pode gerar uma certa resistência do consumidor. O brasileiro tem uma percepção de que produtos feitos em pequena escala são melhores em termos de qualidade. Assim, uma marca conhecida por ser orgânica poderia perder o seu apelo ao ser adquirida por um grande grupo, de acordo com os participantes. Uma solução seria a busca de recursos por meio de fundos de investimentos, como private equity, de forma que o capital injetado possa ser investido na profissionalização e estruturação da cadeia.

Se o objetivo de aumentar as vendas e a oferta de produtos orgânicos aos consumidores brasileiros parece inatingível devido aos desafios da cadeia de produção, empresas que atuam no mercado local já mostram que é possível desenvolver novas linhas de produto trabalhando junto com os produtores.

Case Nestlé: Leite Ninho Orgânico

Após cerca de três anos de projeto, a Nestlé lança em 2019 a versão orgânica do tradicional Leite Ninho, sendo a primeira marca no Brasil a produzir leite orgânico em larga escala. O desenvolvimento deste produto está alinhado com as principais tendências de consumo globais apresentadas pela empresa na palestra – como a busca por um estilo de vida mais saudável, maior autenticidade dos produtos consumidos e também a busca por experiências inspiradoras e marcas com propósitos.

Bastante alinhado com os desafios na cadeia de produção discutidos ao longo do evento, o case da Nestlé se destaca por fomentar a iniciativa do ponto de vista do produtor. A conversão de uma fazenda tradicional para orgânica leva cerca de 18 meses, tornando o processo muitas vezes inviável financeiramente para o pequeno produtor. Além disso, todo o gado deve ser alimentado com pastagens sem o uso de agrotóxicos ou adubos químicos, não é permitido o uso de grãos transgênicos e o gado não pode estar confinado. Estes critérios são fundamentais pois, como não existe um teste específico para saber se o leite é orgânico, apenas conformidade da cadeia de produção pode atestar a qualidade do alimento. Assim, temas como rastreabilidade passam a ser uma prioridade.

Para incentivar a migração dos pequenos produtores e mantê-los na base de fornecedores da Nestlé, a empresa está comprando leite de uma rede de 35 produtores já a preços de orgânicos (cerca de 70 a 80% acima do preço por litro normal) desde o ingresso no programa de migração, por meio de um contrato antecipado com o compromisso de fornecimento ao final do processo de conversão da fazenda. De acordo com a empresa, esse sistema é fundamental para que o produtor possa fazer a migração da produção de maneira sustentável e com qualidade, sem perder sua capacidade comercial. Este compromisso é visto pela cadeia de orgânicos como uma estratégia importante no fomento do mercado e como estímulo para que mais produtores façam a conversão.

Até que se atinja um patamar de produção de ingredientes orgânicos em grande escala, é esperado que os custos sejam repassados ao consumidor final, resultando em um produto pelo menos 50% mais caro. Com uma comunicação mais clara sobre o que é um produto orgânico e tudo o que está por trás da produção até o consumidor final, a diferença de preço pode se tornar mais justificável – uma vez que grande parte dos brasileiros ainda acredita que “orgânico” é simplesmente “natural” e, portanto, não devia custar mais caro.

As discussões sobre os desafios e oportunidades para orgânicos no Brasil –  missão cumprida com excelência, mais uma vez, pela FiSA 2019 – indicaram que já existe uma demanda crescente pelo produto, mas que dois grandes pilares precisam ser trabalhados de maneira intensiva para que o mercado avance: a profissionalização e estruturação da cadeia de produção e também a comunicação com o consumidor final.