De volta ao básico: Uma tendência de consumo em alimentos e bebidas no Brasil

Este artigo faz parte da série destacando o estudo ‘10 Principais Tendências Globais de Consumo’, disponível em português para download.

A tendência ‘De volta ao básico pelo status’ refere-se à busca dos consumidores por produtos e experiências autênticas e diferenciadas que permitam que eles expressem sua individualidade.  Enquanto nos mercados mais desenvolvidos essa tendência desdobra-se em um estilo de vida menos materialista e mais simples, nos mercados emergentes – como o Brasil – houve uma busca por produtos menos genéricos, de maior valor agregado, atributos diferenciados e que indicam um certo nível de status.

Segundo a pesquisa Lifestyle Survey da Euromonitor, realizada em 2017 com 30 mil consumidores em 21 países, 20% dos brasileiros participantes do estudo indicaram estar dispostos a pagar mais por alimentos naturais. Uma nova forma de status com foco em produtos mais simples e minimalistas que enfatizam pontos específicos, além do preço, ganhou relevância em setores como alimentos embalados e bebidas do Brasil. Houve um aumento na demanda por produtos locais, artesanais, minimamente processados e que valorizam os ingredientes regionais.

Fonte: Pesquisa Lifestyle, Euromonitor International (2017)

Na indústria de alimentos, novas empresas e produtos que entraram no mercado oferecendo mais do que apenas um produto que “mata a fome” conseguiram crescer mesmo com os efeitos da crise. Um exemplo é a premiunização observada no setor de chocolates. Enquanto o volume de vendas no caiu a uma taxa média anual de 2.6% entre 2013 e 2018, o faturamento de vendas cresceu 2% ao ano, em valores correntes, no mesmo período.  No último ano vimos a expansão da Dengo, novo fabricante de chocolates premium e varejista independente que hoje já possui seis lojas. A marca conecta pequenos e médios produtores de cacau sustentável  da Bahia através de um produto verdadeiramente brasileiro com origem local, sabores nacionais (incluindo frutas da Amazônia como o cupuaçu), minimamente processado, e disposto de forma extremamente artesanal na frente do cliente, permitindo que eles degustem e vivenciem a experiência de uma loja sensorial.

Já no segmento de bebidas, a tendência artesanal – já consolidada no setor de cervejas, destilados (principalmente a cachaça) e vinhos do Brasil – chegou fortemente ao mercado de café brasileiro. Porém, mais do que ressaltar o caráter local das marcas ou uma certificação geográfica específica, a tendência desdobra-se na personalização do produto por meio de critérios de fácil entendimento do consumidor, como a acidez, mineralidade e doçura do café. Diversas marcas buscam mostrar que por meio desses três simples atributos pode-se criar uma gama de variedades, conferindo uma experiência única para o cliente e, desta forma, trabalhando a questão do status e a construção da imagem que cada consumidor busca passar sobre si mesmo. A Melitta, por exemplo, possui uma iniciativa que permite que o consumidor personalize seu café ao seu gosto e a uCoffee guia o consumidor para encontrar a marca de café que mais se assemelha aos seus gostos e preferências – seja com uma marca que já está no mercado, ou buscando diretamente o melhor café com um produtor.

A prova de que esse movimento não é temporário mostrou-se justamente na busca por cafés cada vez mais originais e que se destaquem por seus atributos mais elementares, mantendo a categoria em crescimento constante, mesmo sendo um mercado com grande penetração do produto e com a economia em crise. Entre 2013 e 2018, o preço médio por kilo de café cresceu quase 17% em termos correntes, atingindo os mesmos patamares de crescimento em valor agregado que o vinho e a cerveja. Até 2023, espera-se que o café repita este crescimento no período, reforçando o caráter irreversível deste movimento.

A tendência ‘De volta ao básico por status’ deverá se tornar ainda mais relevante em 2019 e nos próximos anos. À medida que o país apresente uma situação melhor economicamente, mais consumidores devem se afastar dos produtos massificados, atribuindo um valor ainda maior à qualidade e aspectos únicos dos alimentos e bebidas que consomem.

Para mais informações sobre as mudanças nos valores e prioridades dos consumidores e como estes estão causando disrupção nos negócios ao redor do mundo, faça o download do nosso relatório ‘10 Principais Tendências Globais de Consumo’, disponível em português.

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem em fevereiro de 2019.